quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Velado

Queimei longas horas do dia pensando que caminho teria seguido se eu tivesse escolhido ficar.
Talvez, o tempo se transformasse em um eterno trocar de farpas. E depois de noites mal dormidas, eu acordaria. O leite com café derramado pra todos os cantos e eu em frangalhos juntando teus trapos.
 Eu esperaria como em um balé incessante, até que a vida te tocasse e fizesse sentir que mudar é uma escolha: a escolha que deve ser feita quando a vida tá sem cor.
Mas, eu escolhi fechar a porta.

Fechei porque o que me restou do cotidiano foi a poesia visceral, mais grudada na nossa casa que rejunte de azulejo. Mas rejunte, meu bem, nada mais é que tapa buraco disfarçado de amor.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

conexo

o porta retrato virado para baixo
amargor que invade a sala
porra! o estranho está deitado no sofá
sem ninguém assistir, a TV exibe Dean e Wood de outros tempos
o esquisito ronca de costas para a tela (poxa, e como)
há bituca de cigarro por todos os cantos
preciso de um drink
amanhece
o roncar vira prosa
começa mais um dia e eu não me livro desse velho

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Imper (feições)



Lá vem ela desfilando sua leveza pela rua. Eu diria que outrora ela foi de parar o trânsito. Os cabelos cor de nuvem se enrolam em um pequeno coque. Pelas roupas, a senhora de olhos vivos e audaciosos, mais parece saída dos concertos de Woodstock: saia comprida tie day, bata branca esvoaçante, sandálias trançadas nas pernas.
Pendurada no ombro uma sacola dessas recicláveis com os dizeres: recycle your mind and change the world (recicle sua mente e mude o mundo). “Ainda mais instigante para uma senhora com cabelos grisalhos”, pensei eu. Na mão, a velha tinha um café fumegante - uma alternativa para esquentar a quarta feira cinzenta. Da minha janela eu observava seu trote pela rua, imaginando o que sua pele enrugada já havia vivido. Dois goles no meu uísque e me ajeito na cadeira. Adoro mirabolar e imaginar histórias para pessoas (que parecem) interessantes.
Depois de uma longa piscada, volto meus olhos para ela. Suas mãos lançam o copo sujo de café ao relento (para minha decepção), ele rodopia, dançando no ar e recaí no canto próximo à calçada. “Eu espero demais dos outros e isso é sempre decepcionante”. É a minha fraqueza. Querer, mesmo que em pensamento, que as pessoas façam exatamente aquilo que eu espero. Defeito meu, eu sei. As pessoas tem liberdade para ser qualquer coisa, errar e acertar da forma que quiserem.
O fato é que eu estava desolada. Observo o meu uísque, fluído e intenso no copo. Da mesma forma que ele, meus pensamentos escorriam por toda minha cabeça, quase sendo expulsos pela orelha, como um turbilhão. “Como uma senhora tão alternativa joga lixo no chão?”. Para falar a verdade, essa atitude desfez todas as lindas histórias que construí no meu imaginário. E como se não bastasse imaginar e encontrar uma solução para a atitude dela. Isso certamente melhoraria o meu dia.
Talvez, ela estivesse cansada de fazer a diferença num mundo cruel e banalizado. Talvez, ela pegou a roupa hippie e ativista emprestada da filha ou da neta. Talvez, ela queria ser uma poetisa marginal, dessas que vivem de ninguém-sabe-o-que, mas se divertem muito e são livres para escrever o que quiserem, por isso jogar lixo no chão era o de menos no momento. Talvez, ela vinha a muito caminhando e não encontrou nenhuma lixeira no caminho. Ou, talvez, mas só talvez, ela seja humana e imperfeita, como qualquer um pode ser. E eu precisava aceitar isso.